![]() |
| Foi este o cenário do meu pior pesadelo. |
Quinta-feira foi um dia complicado para mim e para muita gente da minha ilha . Ao ligar a televisão, só ouvíamos falar em incêndios, em casas destruídas e em pânico. Estava no meu quarto, exatamente aqui, na minha secretária, a falar ao telemóvel com uma amiga, quando recebo outra chamada em anónimo. Hesitei muito, mas acabei por atender .
- Estou Tatiana !
Fiquei perplexa, era a voz dele, devia estar a delirar, é claro que não podia ser ele.
- Tatiana, responde-me é o P.!
Foi aí que percebi que era mesmo ele, era o meu ex, e em frações de segundos vieram tantos pensamentos á cabeça: o que seria que ele queria?, será que estava bem?, será que tinha acontecido alguma coisa?
- P.?
- Sim, o P.! Está tudo bem contigo? O incêndio chegou á tua casa ?
- Sim, eu estou bem. Aqui não chega nada! - mal sabia eu o que me esperava - não te preocupes! E tu, tá tudo bem contigo e com a tua casa?!
- Sim está! Só liguei para saber se tinha chegado alguma coisa aí! Mas já vi que estás bem, xau!
- Xau.
Pousei o telemóvel continuando a não perceber o que se tinha passado.
Uns minutos depois, estava eu a falar com o D., um amigo meu, por web quando decidi mostrar-lhe a grande nuvem que conseguia ver da minha casa. Peguei no meu portátil , e fui até a rua, ao jardim, tentar mostrar-lhe. Quando lá cheguei encontrei uma realidade diferente do que estou habituada . Só conseguia ver chamas enormes, fumo, e árvores a serem devastadas ! Desliguei o computador, e comecei a chamar os meus pais, que já estavam no nosso quintal a molhar o terreno e a casa. O fogo aproximava-se cada vez mais, até ficar mesmo á frente da minha casa. Não sei descrever aquilo que senti. Sentia um aperto no peito que aumentava consoantemente as chamas se aproximavam. O meu telemóvel não parava de tocar . Sim , ele ligou-me outra vez, estava com outro rapaz, o R. , também meu amigo. Eu atendi todas as chamadas. Não conseguia parar de chorar, de tossir devido ao fumo, de gritar. Este pesadelo demorou mais de 5h a passar. Perdi a conta de quantas vezes eles ligaram-me, mas foi bom, de certa forma acalmavam-me, pouco, mas acalmavam. O meu maior desespero era as chamas estarem a menos de 15 m da minha casa, e não termos o apoio dos bombeiros. Não me revoltei contra eles, porque eram muitos fogos ativos, muita gente a precisar de ajuda, e eles não têm o poder de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Eu, os meus pais, os meus vizinhos e pessoas que nem conheço demos conta do recado, impedindo que ficasse sem casa. Não sei como conseguimos, um grande obrigada a todos os que ajudaram e um grande obrigada ao meu anjo da guarda que esteve lá em cima a olhar por nós (AMO-TE AVÓ!)
Conseguimos salvar a minha casa e a da minha tia, que fica encostada, mas não conseguimos extinguir o fogo. Este continuava bem ativo, e passou para o outro lado da estrada, perto da casa da minha avó e de outra tia. Foram mais umas horas de angústia e de verdadeira luta, só quem passa é que sabe o que é. Depois de saber que as coisas já estavam "controladas" fui até á estrada. Sentei-me. Estava exausta, assustada, depenteada e suja. Continuava a tossir muito, acho que engoli mais fumo que um fumador durante a sua vida inteira. Descancei a minha cabeça nas minhas pernas, e fechei os olhos por uns segundos. Como aquilo soube tão bem. Quando abri os olhos, vi uns calções á minha frente, e reconheci-os logo. Lá estavam eles os dois, ali , á minha frente, o P. e o R. a olhar para mim. Acho que foi o 1º sorriso que dei desde que o pesadelo tinha começado. Tiveram cerca de meia hora comigo, estavam dispostos a ajudar, mas já não havia muito a fazer, as coisas já estavam controladas. Mostraram o quanto estavam preocupados, e foi muito bom receber o apoio deles, foi uma grande prova de amizade. Vieram a pé, de muito longe para poderem estar ali comigo. Depois de irem embora, não consegui parar de pensar naquela visita. A verdade é que já há muito tempo que não falava assim com o P. , e causou-me uma certa confusão o facto de ele ter estado ali, para me apoiar, para mostrar que posso contar com ele. Ele era a última pessoa que eu pensei que se preocupasse, a sério. A verdade é que quem o conhecia á uns 4 anos atrás, se o vissem agora não acreditavam que era mesmo ele. Está tão mudado e para muito melhor. Se eu alguma vez tive dúvidas de que ele era uma boa pessoa, neste dia perdi-as todas.

Sem comentários:
Enviar um comentário